12
abr
10

bons livros

bons livros reconhecemos logo pelo incío:

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.” Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.
> o estrangeiro. Camus.

Sou um homem doente… Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo níquel da minha doença e não sei, ao certo, do que estou sofrendo. Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Ademais, sou supersticioso ao extremo; bem, ao menos o bastante para respeitar a medicina. (Sou suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas sou supersticioso.) Não, se não quero me tratar, é apenas de raiva. Certamente não compreendeis isto. Ora, eu compreendo. Naturalmente não vos saberei explicar a quem exatamente farei mal, no presente caso, com a minha raiva; sei muito bem que não estarei a “pregar peças” nos médicos pelo fato de não me tratar com eles; sou o primeiro a reconhecer que, com tudo isto, só me prejudicarei a mim mesmo e a mais ninguém. Mas, apesar de tudo, não me trato por uma questão de raiva. Se me dói o fígado, que doa ainda mais.
> memórias do subsolo. Dostoiévski.

Aconteceu-me hoje uma aventura insólita. Levantei-me bastante tarde e, quando Mavra me trouxe as botas limpas, perguntei-lhe que horas eram. Ao ouvir que já passava muito das dez, comecei a vestir-me com mais pressa. Confesso que não tinha a menor vontade de ir à repartição, pois já sabia com que cara feia o nosso chefe de seção me receberia. Há muito tempo que ele passa a vida a dizer-me: – “Então, irmão, que tens? Que confusão é essa na tua cabeça? De vez em quando agitas-te como quem ficou asfixiado pelo vapor da estufa, e atrapalhas o serviço de tal maneira que nem o próprio Satanás o desembaralharia, pões minúscula no título, não colocas nem data nem número!” Maldito palerma! Decerto está com inveja de mim, porque o meu lugar é no gabinete do director, onde aparo as penas de S. Ex.a. Numa palavra, eu não teria ido à repartição se não fosse a esperança de lá encontrar o caixa e, talvez, extorquir daquele judeu alguma coisa por conta do próximo ordenado. Mas que homem! Para ele fazer um adiantamento sobre o mês que vem – Deus do Céu! – mais depressa virá o juízo anal. Pode a gente pedir, estar em extrema necessidade, rebentar, que o diabo do velho não adianta nada. Entretanto em casa -todo o mundo sabe – leva bofetões até da cozinheira.
> diário de um louco. Gogól.

12
abr
10

Elles sont toutes des inconnues.

um belíssimo filme. alguém que ama a todas as mulheres porque de fato já não deseja amar nenhuma.

“Mas o que tem todas essas mulheres? O que tem a mais que todas as outras que eu conheço? Bem, justamente, o que tem a mais é que são desconhecidas.”

12
abr
10

feliz.feliz

Eduard Anatolyevich Khil.

impossível cantar mais feliz. estranhamente viciante.

25
jan
10

helter skelter

faltam 11 dias:


When I get to the bottom I go back to the top of the slide

Where I stop and turn and I go for a ride

Till I get to the bottom and I see you again

helter skelter – the beatles

30
nov
09

aids

imagina só viver numa época em que a AIDS era causada pela ‘degeneração moral’?

imagina, agora, viver na semana em que foram lançados os famosos coquetéis virais, que prolongaram a vida útil dos pacientes com HIV? em um dia, você vai morrer de aids em menos de um mês, no outro, não.

vi uma propaganda muito boa: é possível viver com a aids, com o preconceito, não.

 

só fico pensando que essas coisas às vezes me fazem continuar andando quando vejo o sol nascer de manhã indo para o anglo, ou na véspera das provas.

 

 

27
nov
09

será que vai chover?

Ohayô/Bom dia (1959), Yasujiro Ozu.

o diálogo transcende o sentido trivial de seu próprio significado ao se adequar as normas e padrões estéticos da civilidade. por hábito adquirido, embrulhamos para presente a comunicação que acaba perdendo muitas vezes a sua função básica de materializar os pensamentos e as sensações em signos. claro que isto só ocorre quando ambos conhecem estes signos. zizek coloca que onde o portador da representação (faltosa) falhar em intervir, nenhum objeto pode ser elevado à dignidade de coisa e daí não se concretiza o processo de comunicação. e é isto que ocorre na nossa sociedade. não se pode mais falar da maneira mais inteligível ou não se falar nada quando as palavras não cabem.

as faltas na linguagem aqui são construtivas, não há necessidade de mais. nenhum outro diálogo caberia melhor ou pior porque ele é continuaria a ser mera formalidade, vazio de significado perante o que realmente gostaria que fosse dito. e de fato nem precisa ser dito verbalmente, porque o mesmo já é traduzido instantaneamente.

crédito das imagens para o tio vania: http://tio-vania.blogspot.com/

24
nov
09

fronteiras – ici et alleurs (1976)

ocidente e oriente, OTAN e união européia, pacífico e atlântico, sindicalismo e anarquismo, fábrica e trabalhador, escritório e casa, israel e palestina, china e tibet, índia e paquistão, taleban e estados unidos, bush e obama, petróleo e álcool, imagem e movimento, teatro e cinema, digital e analógico, homem e mulher, ongs e Estado, socialismo e capitalismo.

estados unidos e inglaterra, portugal e espanha, roma e grécia. século XX e século XXI, computador e celular, homossexual e heterossexual. medicina oriental e medicina ocidental, Ruanda e Alemanha, judeu e árabe, brasileiro e não-brasileiro, homem e macaco, homem e computador, deus e homem.

marte e terra, sol e estrela, Clarice Lispector e Simone de Beauvoir, médico e monstro, pena capital e assassinato, suicídio e terrorismo, terrorismo e guerra, guerrilha e exército, favela e asfalto, morro e bairro, centro e periferia. rico e pobre, fome e doença, desgraça e tragédia, sinônimos e antônimos, verbo e sujeito, inglês e português. português do brasil e português de Portugal.

homem e menino, ficar e namorar, amor e paixão. amor e temor. bater e acariciar. tempo e espaço, massa e volume, física e química. muito pequeno e menor ainda. muito grande e maior ainda.

o século XX nos deixou em um mato sem cachorro nem gato.

02
nov
09

queremos aula

precisávamos organizar uma mobilização pela reforma do sistema educacional.

deveríamos sair na rua gritando: aula, queremos aula. aula…

pelo amor de deus, aula.

 

faltam aulas neste mundo.

02
nov
09

on priorities

An interviewer once asked Jean Cocteau, “If your home were on fire and you could save only one thing from it, what would it be?”

Cocteau replied, “I would save the fire!”

02
nov
09

soyons réalistes, demandons l’impossible [paris, Mai' 1968]

veja mais cartazes do atelier populaire de paris: the world of kane




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